O sudoeste do Paraná tem na agropecuária a espinha dorsal da sua economia. Quem percorre a região encontra propriedades leiteiras, rebanhos de corte, granjas, lavouras e toda a cadeia que sustenta uma das agriculturas mais produtivas do estado. Não por acaso, boa parte dos veterinários que se formam aqui constroem carreira justamente nesse universo — atuando na saúde animal de bovinos, suínos e aves, do campo às cooperativas. Mas a medicina veterinária é uma ciência muito mais ampla do que os pastos e as granjas conseguem mostrar. Nas cidades, pet shops e clínicas particulares cuidam de cães e gatos com uma demanda que só cresce. E há ainda um outro universo, menos visível, mas igualmente presente: o dos animais selvagens e das espécies de pets não convencionais que, com frequência crescente, chegam às mãos de quem tem preparo para atendê-los.

No curso de Medicina Veterinária da Unisep - campus de Dois Vizinhos, a disciplina de Medicina em Animais Selvagens é mais um diferencial do curso, e poucas são as instituições que ofertam tal disciplina, que é necessária, aos olhos da instituição. Essa realidade aparece com naturalidade no cotidiano da Clínica Escola Unisep. Não é raro que entre pela porta um animal que foge completamente do roteiro esperado. Esses dias mesmo, um gato-maracajá foi encaminhado para atendimento — o tipo de ocorrência que exige conhecimento específico, equipamentos adequados e, sobretudo, um profissional que já tenha visto isso antes. E foi justamente durante a entrevista sobre a disciplina de Medicina em Animais Selvagens que o professor responsável precisou dar uma pausa: "deixa eu estabilizar um papagaio, já seguimos a conversa". A frase resume bem o ambiente.

Alunos de Medicina Veterinária da Unisep em frente à clinica escola

Um mercado que não para de crescer

Os números ajudam a contextualizar o movimento. A procura por pets não convencionais cresceu 7,6% em 2024 em comparação a 2022, segundo a Abinpet, e répteis e mamíferos de pequeno porte já estão presentes em 39% dos lares com animais de estimação no Brasil. Entre 2022 e 2024, o segmento de animais não convencionais, como pequenos mamíferos, répteis e anfíbios, registrou crescimento de 40% no seu faturamento. Junto com esse avanço, cresce também a demanda por veterinários especializados, já que esses animais precisam de acompanhamento médico diferenciado — e os tutores ainda não estão familiarizados com o manejo adequado de cada espécie.

Profissionais da área reforçam que o mercado está carente de veterinários especializados em medicina de exóticos, e ainda mais carente de especialistas como anestesistas, cardiologistas e oncologistas voltados a essa fauna. É uma lacuna que a formação qualificada, com estrutura, prática e um professor que viveu tudo isso de perto, tem cada vez mais condições de preencher.

A procura por pets não convencionais tem crescido cada vez mais

O que o aluno da Unisep aprende nessa disciplina?

A disciplina abrange o atendimento clínico e cirúrgico de animais selvagens e pets não convencionais, como serpentes, répteis, pássaros, coelhos e tantas outras espécies que fogem do universo tradicional do cão e do gato. Na prática, os alunos aprendem desde a produção de um dardo tranquilizante até a realização de cirurgias em fauna silvestre, procedimentos que exigem técnica apurada e conhecimento aprofundado sobre cada espécie. Tudo isso apoiado pela infraestrutura da Clínica Escola e pelos laboratórios equipados para aulas práticas com grandes e pequenos animais, onde a teoria encontra a prática antes mesmo da formatura.

Alunos em atendimento a um gato maracajá, na clinica escola

Um professor com conhecimento de causa

Por trás dessa disciplina está o Mestre Felippe Azzolini, especializado em anestesiologia e clínica médica e cirúrgica de animais Selvagens, à frente da matéria desde 2013. Em um período em que se afastou das salas de aula, Azzolini atuou em projetos que poucos profissionais da área têm na trajetória: integrou o Instituto Onça-Pintada, em Goiânia, trabalhou ao lado do biólogo Richard Rasmussen no manejo de animais exóticos e participou das expedições da Arca do Chico — um dos poucos hospitais veterinários móveis da América Latina, que levou atendimento especializado a estados brasileiros e países da América do Sul em regiões de difícil acesso. Atuou também no Zoológico Ecopark SoleMar, em Maragogi-AL, antes de retornar à Unisep para assumir a coordenação da Clínica Veterinária Escola.

Professor Felippe ao lado de um tigre, préviamente tranquilizado

Com isso, a Unisep não forma veterinários para um recorte específico da profissão. Forma profissionais capazes de atuar no campo, na clínica, no zoológico ou em qualquer outra demanda da profissão. Esse ensino abrangente, sustentado por infraestrutura real e professores com experiência de mercado, é o que faz a diferença entre sair da faculdade com um diploma e sair dela pronto para exercer a profissão em toda a sua amplitude.